Hoje eu acordei com vontade de escrever

Monday, June 04, 2007

Será que a Vó* pensava assim?

Puta que o pariu são cinco da manhã. Cinco da manhã e eu tô acordada. De novo. Envelhecer é isso. É acordar antes de amanhecer não importa se eu ainda tenho sono ou não. É não conseguir dormir de novo não importa quantos carneirinhos eu conte. É passar o resto do dia batendo cabeça e passando a humilhação de acordar com o meu próprio ronco para no dia seguinte despertar às cinco da manhã outra vez. Não cheia de disposição, é claro, porque a última vez que eu acordei cheia de disposição deve ter uns 25 anos.

Que saudades de dormir demais! Que saudades de perder a hora! De acordar com o corpo todo amassado das dobras do lençol e a cara molhada numa mistura de suor e baba do travesseiro!

E de pensar que até outro dia (na minha idade outro dia quer dizer há alguns anos atrás), quando eu ainda precisava colocar os meninos na condução da escola, já com a merenda dentro da lancheira, eu não acordava tão cedo. Nem tão fácil.

Eu não me importo com as rugas, com a dor nas juntas, com cortar os doces por causa da diabetes e o sal por conta da pressão alta. Não me importo nem em ganhar talco do Boticário todo Natal. Juro. Eu uso talco mesmo e o do Boticário até que é bem cheirosinho.

Me importo um pouco com a porra do joanete que faz com que qualquer sapato vire um instrumento de tortura. Me importo também em trocar o nome dos netos e dos filhos, não tanto pelo esquecimento, mas por ser considerada gagá por uma questão semântica, quando eu sei muito bem que é quem, e qual deles vai se dar bem na vida e qual deles vai sofrer que nem um cão. (Se estivesse mesmo gagá declararia em alto e bom som quem são os doidos, os burros e os preguiçosos da minha prole e da prole da minha prole, mas ainda tenho em mim a falsidade inerente à sanidade.)

Também me importo com as novelas de merda de hoje, que não se comparam com Feijão Maravilha ou Bem Amado e, como se não bastasse, ainda vêm acompanhadas de um caminhão de reclames bestas.

Me importo em já não ter aqui os meus pais, os meus irmãos, o meu marido.

Mas o que me incomoda mesmo é meus olhos abrirem invariavelmente às cinco da manhã, de domingo a domingo, logo agora que eu não tenho um caralho pra fazer além de tricô.


*Para os que não sabem, "Vó" era a minha bisa.

2 Comments:

Blogger Gastón said...

Aline, muito bom esse texto. Inerente a toda as avós que se tem notícia.

8:21 AM  
Anonymous Anonymous said...

Florzinha, amei! E não somente pelo fato de que EU já acordo todos os dias às 5:00 da manhã....

8:19 AM  

Post a Comment

<< Home