Hoje eu acordei com vontade de escrever

Thursday, July 16, 2009

O seu olhar

Fazem 20 anos que te conheci. Cheguei na festa de um aluno da faculdade e você conversava animada com outras três pessoas. Baixinha, com umas cadeiras largas e um peito pequeno, que não fazia questão de esconder debaixo da camiseta branca, sem sutiã. Dez anos mais jovem do que eu, o que naquela época, eu considerava velha. Provavelmente não teria nem reparado em você, se você não tivesse reparado em mim. Reparado e disparado um olhar que me comeu inteirinho. As três pessoas com quem você conversava olharam para trás. Eu corei. Eu, Eduardo de Souza Martins, corado. Me senti uma menininha virgem quando se descobre um ser sexuado pela primeira vez, pelo olhar de algum sem vergonha descarado.

Foi assim e fazem 20 anos. Eu que era conhecido e invejado pelas mulheres com quem saía, me vi impotente e comovido por um olhar de uma moça sem graça, cujo o único atrativo era a indisfarçável vontade de me ter.

E me teve. Você me teve contra todas as minhas vontades.

Eu casei quando queria ficar solteiro, eu fui para Guarapari quando queria ficar em casa, eu aceitei aquele emprego quando havia prometido que nunca usaria terno e gravata. Eu topei a putaria com a Juzinha e o Cláudio quando não tinha a menor vontade de trepar com a Juzinha e sabia que me consumiria de ciúmes do Cláudio. Eu me consumi de ciúmes do Cláudio e bebi litros de whisky barato enquanto você ria e segurava o meu rosto dizendo que eu não podia estar mais errado. Eu descobri que não estava errado. Eu sofri sozinho e calado, decidido a não dizer nada para não perder a ilusão de que ainda restava, escondido no seu olhar desviado, alguma vontade de me ter.

Quantas vezes eu chorei no colo de outras putas, sentindo a saudade ferir a facadas a minha dignidade. Quantas vezes jurei que ia sumir até você desaparecer de dentro de mim. Mas eu sempre voltava para casa.

E numa destas voltas, cheirando a bebida e sabonete, te vi de malas prontas, dizendo que não aguentava mais viver assim. Me ver assim.

Tentei te segurar, te abraçar, mas fui contido pelo seu olhar. Um olhar que me corroeu inteirinho. Um olhar que desejava mais que tudo nunca ter me possuído.

Fazem 7 anos que você foi embora. Mas ainda existem dias como hoje em que eu acordo com vontade de te encontrar. E dizer que estraguei anos de minha vida, que eu quis morrer, que tive meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não fazia o meu gênero!

A vontade passa e fica o medo do seu próximo olhar. Um olhar nem de desejo, nem de nojo. Um olhar que, ao contrário de mim, foi capaz de esquecer tudo, de perdoar tudo, e que, mesmo disfarçado com um milhão de palavras, não iria dizer absolutamente nada.

Tuesday, July 07, 2009

Nessa casa

Aqui nessa casa,
onde os dias amanhecem lindos,
onde a luz entra por todos os lados,
onde a coisa mais perfeita dorme em um quarto
e um cão quase gente ronca no outro.

Aqui nessa casa,
com as plantas que eu esqueci de regar,
com a bagunça que só eu sei fazer,
com as nossas alegrias penduradas em cima da lareira
e as nossas angústias escondidas debaixo do tapete.

Aqui nessa casa,
quando a lua está cheia na varanda,
quando mais um seriado ilumina a TV,
quando o computador outra vez está ficando sem bateria,
nada está mais presente do que a falta que você faz.

Saturday, June 20, 2009

O meu filme

Sabe aquela sensação de quando um filme termina e tudo parece fazer sentido? Em duas ou três horas está tudo ali. Um início, meio e fim.

De uma história de amor, de um história bonita, dessas baseadas em fatos reais, sobre alguém que comeu o pão que o diabo amassou mas conseguiu realizar seu sonho, do drama de uma guerra.

Anos de vida, anos de sonhos, anos do terror terminam com uma música bonita e umas letrinhas brancas num fundo preto, que te deixam ali, pensando sobre as cenas que acabou de ver, os pensamentos que acabou de ter, as emoções que acabou de sentir.

E tudo faz sentido.

Alguém por favor contrata um editor para a minha vida. Alguém que faça caber em duas ou três horas a minha história de amor, os meus sonhos e os meus dramas. Talvez eu consiga fazer com que tenham sentido as 24 horas dos 365 dias dos meus 33 anos. Quem sabe eu consiga rir da piada que eu sou, me inspirar com a força que eu tenho e me compadecer dos problemas que eu tive.

Porque se depois de duas horas achamos que podemos chegar perto de compreender o que é ter sido um judeu numa Alemanha nazista, uma boa montagem da vida de uma mulher tão normalzinha como eu faria (quem sabe?) com que eu finalmente me compreendesse.

Tuesday, February 17, 2009

Filha, não se esqueça.

De todas as coisas que eu quero fazer,
de todas as coisas que eu tenho que fazer,
de todas as coisas que eu posso fazer,
a mais importante é você.

Saturday, February 07, 2009

Faz tempo que eu não me vejo

Passei aqui para dizer que estou com saudades do meu blog.
Uma saudade meio de mim.

Sunday, November 23, 2008

Divagações de uma Manhã de Outono

Um café com leite sobre a mesa verde do parque, meu cachorro se esquentando no sol de Outono, o vento brincando de equilibrar folhas douradas no ar, minha filha dormindo tranquila dentro de uma roupa de ursinho cor-de-rosa e eu lendo um livro daqueles que me matam de inveja pela habilidade que o sujeito tem para, com algumas palavras, me fazer sentir exatamente o que ele quer que eu sinta.

O bode que tinha acordado comigo não resistiu à minha manhã de Outono e resolveu ir passear. Quem sabe ele tenta voltar na segunda, o dia oficial dos bodes e afins. Pensei em algumas coisas e lembrei de um conversa que tive por estes dias, com um tio muito querido e que sabe de muitas coisas, mas não sabe apreciar o tempo gasto num parque lendo um livro. Literatura é perda de tempo, ele disse. Me senti quase ofendida. Literatura é tão perda de tempo quanto beijar na boca ou comer brownie com calda quente de chocolate.

Ler um bom livro é como dançar música lenta (não me conformo que os pré-adolescentes de hoje não dancem música lenta, tremendo de excitação e ansiedade com a aquele proximidade física). Você é levado para lá e para cá. Você se torna consciente de que a sua respiração e a de cada personagem seguem o mesmo ritmo e isso traz uma intimidade difícil de explicar. Você acompanha a música, virando cada página, torcendo para aquela história não acabar.

É claro que existem os livros certos, nos momentos certos. O livro errado, na hora errada, é como se dar conta de que o menino que te tirou para dançar tem mau hálito. Lá se foi toda o encantamento e você só é capaz de notar os pisões no pé. Mas o livro certo na hora certa, pode mudar o seu humor, o seu dia e - acredito eu - até a sua vida.

Nesse momento, estou dançando com "A Sombra do Vento". Um livro que fala, dentre outras coisas, de livros. Recomendo para todos e, especialmente para um tio muito querido, que sabe de muitas coisas, mas anda precisando aprender a separar um tempinho para ler um livro no parque ou o que quer que faça ele se sentir como se estivesse dançando música lenta.

Tuesday, November 04, 2008

Hoje eu acordei com vontade de cozinhar.

Entre dar um peito aqui e esterelizar uma chupeta ali, consegui arrumar um tempinho para fazer um almoço diferente. Recetinha pa-pum do site Panelinha porque afinal de contas continuo mãe de primeira viagem de uma bebê de dois meses. Lentilhas com espinafre e peixe com ervas ao forno. Tudo pre-preparado para só colocar no forno depois de dar o outro peito para mamar quando o telefone toca. É meu marido avisando que não vai poder vir almoçar em casa.

Eita, que frustraçãozinha mais dona-de-casa.